A ordem pública e o controle social das práticas balneárias no começo do século XX

Em 2016, foi publicado no periódico Recorde: Revista de História do Esporte, o artigo “Medindo maiôs e correndo atrás de homens sem camisa: a polícia e as praias cariocas 1920-1950”.  A temática é abordada por Bert J. Barickman, professor de História da Universidade do Arizona, nos Estados Unidos, no artigo que antecede um livro ainda em processo de elaboração, como informado pelo próprio autor.

Em linhas gerais, o artigo de Barickman (2016) discute as várias campanhas policiais para moralizar e civilizar os banhistas e as praias cariocas entre 1920 e 1950. Essas campanhas se destacam por ter como alvo principal os banhistas de classe média e média-alta que frequentavam as praias de Ipanema e Copacabana, consideradas praias “aristocráticas” e “elegantes” naquele período. O artigo também revela um conflito sobre a definição dos conceitos de moralidade e civilidade e traz um debate acerca dos privilégios sociais e do uso aceitável do espaço público no começo do século XX.

 

charge
Para Todos, 19 de Março de 1927.
“ – Isso é uma pouca vergonha! Eu vi três marmanjos com roupas indecentíssimas fazendo ginástica! – Pois nós não vimos, vamos voltar?”

 

O autor explica que na década de 1920 as praias de Copacabana e Ipanema são palco de um momento fundamental da cultura balneária: a transição do banho de mar, já estabelecido como ‘receita médica’ ou momento de lazer desde o século XIX, para a prática de frequentar a praia. Segundo Barickman (2016), a diferença fundamental é que a atividade realizava-se, sobretudo, na água e a prática era efetivamente de banhar-se no mar. Por isso, não se dizia “ir à praia” e sim “ir ao banho” ou “fazer uso dos banhos”. É também na década de 1920 que o locus da atividade e da sociabilidade transferiu-se para as areias e foi essa mudança fundamental que possibilitou a prática do “ir à praia”.

Em linhas de conclusão, o autor destaca que, no período estudado, a polícia de fato interveio repetidamente tentando restringir a presença de banhistas nas ruas do Rio de Janeiro. Seus esforços nesse sentido não obtiveram nenhum sucesso duradouro. A história daquelas campanhas constitui um bom exemplo de como, apesar das tentativas de restrição impostas pelas autoridades, as práticas da vida cotidiana podem mudar as regras que ordenam os usos do espaço público. No caso do Rio de Janeiro, é comum nos dias atuais ver circular pelos calçadões e pelas ruas dos bairros de Copacabana e Ipanema, por exemplo, homens de sungas e mulheres de biquíni na copresença de outras pessoas completamente vestidas, engravatados, crianças uniformizadas, etc. sem que isso cause um estranhamento maior.

Laisser un commentaire

Entrez vos coordonnées ci-dessous ou cliquez sur une icône pour vous connecter:

Logo WordPress.com

Vous commentez à l'aide de votre compte WordPress.com. Déconnexion /  Changer )

Photo Google+

Vous commentez à l'aide de votre compte Google+. Déconnexion /  Changer )

Image Twitter

Vous commentez à l'aide de votre compte Twitter. Déconnexion /  Changer )

Photo Facebook

Vous commentez à l'aide de votre compte Facebook. Déconnexion /  Changer )

w

Connexion à %s